sexta-feira, 17 de julho de 2009

A primeira vez a gente nunca esquece

Já se passaram 15 anos, mas parece que foi ontem que vivi aquelas emoções repletas de sorrisos, nervosismo, prazer, apreensão e muita alegria. Eu, adolescente sem muitas preocupações no interior de MG, esperei aquele momento como muitos da minha idade que nunca tinham vivido nada parecido. Verdade que em algumas ocasiões as reações são semelhantes, mas nada, nada se compara. Acompanhar a conquista da primeira Copa do Mundo é algo inesquecível!


E como acompanhei aquela Copa dos Estados Unidos! Lembro-me das críticas ao time do Parreira, mas naquela época pouco me importava com o futebol pragmático do selecionado canarinho. Eu me recordo de torcer, e muito, para os EUA do roqueiro-zagueiro Lalas na partida em que os anfitriões derrotaram a sensação das eliminatórias, a Colômbia. Teve um lance mágico de uma bicicleta de um yankee que passou próxima à trave colombiana. Preocupei-me com o início da Copa dos hermanos argentinos, até Maradona ser pego no doping. Encantei-me com a primeira fase da Nigéria.

Não esqueço um detalhe sequer dos sete jogos do Brasil naquela Copa. Acompanhei a estreia, contra os russos, em um bar da minha cidade. Vitória suada, 2 a 0. Superticioso, voltei ao Moinho, esse era o nome do bar que nem existe mais, para ver a seleção passear em cima dos Camarões, com um 3 a 0 incontestável. Na última partida da primeira fase a seleção saiu atrás da Suécia e, no fim do primeiro tempo, corri pra casa para ver se dava sorte. E deu! Romário, com o biquinho da chuteira empatou o jogo e manteve a seleção invicta.

As oitavas-de-final seriam contra os EUA no dia 4 de julho. Um bolão entre amigos, todos cravando goleada do time brasileiro. Eu apostei seco. 1 a 0 e estava bom demais. Este jogo foi o primeiro que reuni alguns poucos e bons amigos em casa para ver a partida O jogo desenrolava, o tempo passava e nada do gol. Até aquele passe mágico do Romário para o Bebeto fazer o gol do “eu te amo”. 1 a 0, só, sofrido e eu levei a bolada sozinho. Era tempo da conversão da URV para o real e não me lembro quanto ganhei na aposta, mas deu para tomar muita cerveja. Sim, naquele tempo não era proibido vender bebida alcoólica para menores. Ou, se era, lá ninguém respeitava. Nem os comerciantes, muito menos os adolescentes.

Nas quartas-de-final a poderosa Holanda. O jogo foi no sábado. O finado Diário da Tarde trouxe previsões que o Brasil não passaria pela Laranja Mecânica de Bergkamp. Para quem tinha visto a seleção sempre cair nessa fase da Copa, foi pra frente da TV sabendo que terminaria ali mais um sonho do tetra. Até que o jogo começou e o Brasil marcou duas vezes na primeira etapa, com Romário e Bebeto, no gol “embala nenê”. Inacreditável! Eu e os amigos estávamos desconjurando videntes, tarólogos e sensitivos. “À merda os videntes. Quem tem essa dupla não precisa temer previsões”.

Aí, veio o empate holandês. Todos que assistiam a partida em minha casa não pensavam em outra coisa senão na “porcaria” do Diário da Tarde que lemos naquela manhã. Mas havia um Branco na seleção. Ele era reserva, estava machucado e só jogou porque o Leonardo deu uma cotovelada no Tab Ramos, jogador americano, na fase anterior e foi expulso. O Branco arrumou a bola, tomou distância e soltou a bomba, com curva. O Romário tirou o corpo da frente – depois eu li que ele só fez aquele movimento por medo – e a bola entrou no cantinho, chorado. 3 a 2 e às favas os videntes. Pela primeira vez eu via o Brasil em uma semifinal. Por isso só, já era uma Copa inesquecível.

A essa altura grandes times já haviam ficado pelo caminho. Argentina, Alemanha, Nigéria, Espanha já estavam em casa. No penúltimo passo para o caneco, novamente a Suécia. Eu achei o jogo muito tranquilo. O Brasil não fazia gols, mas a Suécia também não ameaçava. Até que apareceu um cruzamento da direita e o Romário, no meio dos gigantes suecos fez de cabeça o gol que colocou o Brasil na final da Copa.

No dia da decisão os poucos amigos que acompanharam aquela partida contra os EUA na minha casa já eram dezenas. Como eu, todos eles debutando em finais de Copa do Mundo. Era como a perda coletiva de uma virgindade. O jogo foi duro, tenso, como devem ser as decisões. O Baggio estava ameaçado de não jogar, todos torcemos para isso, mas lá estava o camisa 10 e seu rabo de cavalo. Na partida, o Pagliuca quase engoliu um frango e foi beijar a trave salvadora, o Romário perdeu um gol dentro da pequena área e o 0 a 0 persistiu no tempo normal e na prorrogação. Pênaltis nos faziam lembrar a França de oito anos antes.

O Baresi bateu pra fora. Euforia! O Márcio Santos perdeu. Decepção. O Albertini marcou. Medo. O Romário empatou. Susto. O Evani não desperdiçou. Tremor. O Branco empatou. Alívio. O Massaro bateu e Taffarel pegou. É hoje!!! O Dunga colocou o Brasil na frente. É HOJE!!! O Baggio bateu par fora. É TETRA!!! É TETRA!!!! A imagem do Galvão Bueno e do Pelé abraçados e os gritos do narrador nunca mais saíram da minha cabeça.



Lágrimas, sorrisos, cerveja, abraços, tudo misturado. O Brasil, enfim, erguia a taça FIFA. Foram bons e saudosos tempos aqueles. Época de poucas preocupações, de respirar futebol e torcer muito pela seleção. Hoje faz 15 anos, mas parece que foi ontem.

Um comentário:

Alexandre Lana Lins disse...

Olá meu amigo!

Belo texto e belas lembranças. A vitória no Brasil em 94 parece que foi o ontem, mas a vontade de gritar TETRA! é eterno. Acredito, para mim, foi um final mais emocionante do que do penta. Gostei do seu blog e vou falar dele no Blog da Vez. Um programa que faço na Elo FM. No dia que for exibido eu lhe comunico. E como estão as coisas? Trabalhando na área? Abraços!

Alexandre Lana Lins